terça-feira, 26 de julho de 2016

jurisconsultos


"Os jurisconsultos... rolam assiduamente a rocha de Sísifo, amontoando textos de leis sobre um assunto sem a mínima importância. Acumulando glosa sobre glosa, opinião sobre opinião, dão a impressão de que sua ciência é a mais difícil de todas".


Erasmo de Rotterdam, Elcgio da loucura 

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

mofo

deu infiltração no meu apartamento que vazou pra vizinha de baixo. Ela ligou reclamando e aí eu descobri. Os problemas do cotidiano ou virar gente grande tem dessas. Resolver, resolver. Pensei a respeito da solidez do prédio, os espaços vazios, as águas que vazam e tive medo.
E as nossas infiltrações internas. Os espaços (não) preenchidos (íveis). Nossos vazamentos diários que mancham as paredes do vizinho.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

~otto~

Há sempre um lado que pesa e um
Outro lado que flutua. Tua pele é crua.

Dificilmente se arranca lembrança
Lembrança, lembrança, lembrança...

Por isso da primeira vez dói, por isso não se
Esqueça: dói.

E ter que acreditar num caso sério
E na melancolia que dizia.

Mas naquela noite eu chamei você
Fodia, fodia.

(Otto - Crua)

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

paris, california

e ela queria fazer um texto usando o não existe amor em SP, daquela música da moda dos descolados. Música bonita verdadeira. Pensava exatamente nisso enquanto limpava a vidraça da sacada. Queria escrever um texto moderno interessante bom de ler, tipo revista Piauí. Tinha que colocar muito limpa-vidro e esfregar com jornal, a faxineira do prédio ensinou. Não era mania de limpeza, que implicância das pessoas! Só gostava de tudo limpo cheiroso. Dentro e fora? Faxina onde? A música do fone de ouvido fez lembrar aquele filme. Como era mesmo? O moço saiu andando doido peregrino na estrada no deserto, aí ele queria ir pra Paris, aí a gente descobria que essa Paris era um terreno sujo empoeirado no Texas. E depois descobria que ele teve tristeza grande insuportável e tava era fugindo. A Paris dele era no Texas. Riu. Parou de esfregar a cadeira e riu mais ainda. Aquilo era engraçado. Aí lembrou que o amigo dela contou que lá no Peru existe um lugar que tem uma Nossa Senhora de Copacabana, que existe muito antes da Copacabana do Rio. Será que era verdade? Achou poético. Mas a Paris dela acho que ia ser na Califórnia. Imagina só, andar louca peregrina e de repente chegar na praia de coqueiro só que no primeiro mundo, do povo honesto. Aquela gente que faz ioga parece que vive tão em paz. Comer comida natural. Detox. Dentro e fora. Mas antes esfregar esse piso laminado  claro que suja o tempo todo, tirar as bactérias, lysoform melhor desinfetante. A Paris Texas do pai dela, acho que era Bora-Bora. Ele falou uma vez. Mas aí ele foi praquele hospital público de paredes sujas e ficou sem ar o dia todo, afogando mas não era no mar azul. Ela gosta de pensar que era sim, que cada hora que ele desmaiava e ria, que ele tava sim lá na Bora-Bora. Queria limpar tudo naquele hospital, mas não deu tempo. Nunca dá. Mas ela limpa a casa dela da California, que acaba sendo em SP, e não existe amor em SP. Existe é poluição. E precisa limpar. Esfregar a janela até ficar cristalina transparente pra poder ver o mar azul.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Esperei por você no café
português para nossa última
conversa, queria estar lendo
e fumando
quando você chegasse,
com tranquilidade fingida
e estudada. Seu atraso
custou-me quatro cigarros
consecutivos, o que, segundo
as estatísticas,
significa 44 minutos menos
de expectativa
de vida. Unidos aos seus quinze
minutos de atraso, digamos
uma hora a menos no mundo.
Perda nenhuma. O vento
me descabelava
e eu lutava bravamente
contra mais esta desordem.
Você
chegou, obviamente,
no intervalo
entre o quarto e o quinto.
[Poema de Ricardo Domeneck]

Ah, Gregório...

Soneto Para Construir Janelas

"Erguer antes de tudo uma parede - 
a parede, no caso, é importantíssima, 
pois as janelas só existem sobre paredes,
as janelas sobre nada 
são também nada, e não
são sequer vistas. 
Em seguida, quebrá-la até fazer
nela um grande buraco, não maior
que a parede, pois precisamos vê-la,
nem menor que seus braços - as janelas 
sobre as quais não se pode debruçar 
não são janelas, são buracos. 
Pronto.
Ou quase: agora basta construir um mundo do outro lado da parede,
para que possas vê-lo,
emoldurado". 

(Gregório Duvivier)

quarta-feira, 16 de abril de 2014

cega



"Vi os tempos defendidos.
Eram de ontem e de sempre,
e em cada país havia
um muro de pedra e espanto,
e nesse muro pousada
uma pomba cega. "

(Carlos Drummond de Andrade, "Rola Mundo").

sexta-feira, 7 de março de 2014

a ditadura do tempo livre

Recentes entrevistas de emprego me fizeram lembrar de um texto de Adorno sobre o "tempo livre". Para a pergunta de praxe dos recrutadores, sobre quais são os seus "hobbies", os sites de dicas para entrevistas já trazem as respostas tidas como ideais: escalar montanhas, participar de provas de corridas, realizar trabalhos sociais, dentre outras. Os trabalhos sociais fazem sentido como forma de avaliação do candidato enquanto ser humano, social e preocupado com questões da coletividade. Os esportes "radicais", por sua vez, se tornaram uma forma de identificar as pessoas que determinam objetivos e metas a si mesmas, com foco na superação, em um viés corporativo. Nada contra, cada pessoa escolhe para si a atividade que quiser, mas a institucionalização dos esportes e hobbies nos faz questionar o nível de livre-arbítrio das pessoas hoje em dia: em qual momento escalar uma montanha deixa de ser fruto da vontade verdadeira de alguém e passa a ser uma "obrigação social", um modismo ou objeto de consumo?

O "fazer nada" ainda tem espaço numa sociedade de consumo, de ação e de modelos prontos para seguir? Ainda há permissão para momentos contemplativos, sem resultados?

Trascrevo, abaixo, um trecho do texto de Adorno. Vale a pena refletir.

"Tempo Livre" (T.W.Adorno, "Palavras e Sinais, Modelos Críticos", ed. Vozes, 1995)

"A questão do tempo livre - o que as pessoas fazem com ele, que chances eventualmente oferece o seu desenvolvimento - não pode ser formulada em generalidade abstrata. A expressão, de origem recente - aliás, antes se dizia ócio, e este era um privilégio de uma vida folgada e, portanto, algo qualitativamente distinto e muito mais grato -, opõe-se a outra: à de tempo não-livre, aquele que é preenchido pelo trabalho e, poderíamos acrescentar, na verdade, determinado de fora. 

O tempo livre é acorrentado ao seu oposto. Essa oposição, a relação em que ela se apresenta, imprime-lhe traços essenciais. Além do mais, muito mais fundamentalmente, o tempo livre dependerá da situação geral da sociedade. Mas esta, agora como antes, mantém as pessoas sob um fascínio. Decerto, não se pode traçar uma divisão tão simples entre as pessoas em si e seus papéis sociais. (…) Em uma época de integração social sem precedentes, fica difícil estabelecer, de forma geral, o que resta nas pessoas, além do determinado pelas funções. Isso pesa muito sobre a questão do tempo livre. Mesmo onde o encantamento se atenua e as pessoas estão ao menos subjetivamente convictas de que agem por vontade própria, isso ainda significa que essa vontade é modelada por aquilo de que desejam estar livres fora do horário de trabalho. 
A indagação adequada ao fenômeno do tempo livre seria, hoje, esta: "Com o aumento da produtividade no trabalho, mas consistindo as condições de não-liberdade, isto é, sob relações de produção em que as pessoas nascem inseridas e que, hoje como antes, lhes prescrevem as regras de sua existência, o que ocorre com o tempo livre? (…) Se se cuidasse de responder à questão sem asserções ideológicas, tornar-se-ia imperiosa a suspeita de que o tempo livre tende em direção contrária à de seu próprio conceito, tornando-se paródia deste. Nele se prolonga a não-liberdade, tão desconhecida da maioria das pessoas não-livres como a sua não-liberdade em si mesma. 

Podemos esclarecer isso de maneira simples por meio da ideologia do hobby. Na naturalidade da pergunta sobre qual hobby se tem, está subentendido que se deve ter um, provavelmente também já escolhido de acordo com a oferta do negócio do tempo livre. Liberdade organizada é coercitiva: "Ai de ti se não tens um hobby, se não tens ocupação para o tempo livre! Então tu és um pretensioso ou antiquado um bicho raro, e cais em ridículo perante a sociedade, a qual te impinge o que deve ser o teu tempo livre." Tal coação não é, de nenhum modo, somente exterior. Ela se liga às necessidades das pessoas sob um sistema funcional. No "camping" - no antigo movimento juvenil, gostava-se de acampar -, havia protesto contra o tédio e o convencionalismo burgueses. O que os jovens queriam era sair, no duplo sentido da palavra. Passar-a-noite-a-céu-aberto equivalia a escapar da casa, da família. Essa necessidade, depois da morte do movimento juvenil, foi aproveitada e institucionalizada pela indústria do "camping". Ela não poderia obrigar as pessoas a comprar barracas e "motor homes", além de inúmeros utensílios auxiliares, se algo nas pessoas não ansiasse por isso; mas a própria necessidade de liberdade é funcionalizada e reproduzida pelo comércio; o que elas querem lhes é, mais uma vez, imposto. Por isso, a integração do tempo livre é alcançada sem maiores dificuldades; as pessoas não percebem o quanto não são livres lá onde mais livres se sentem, porque a regra de tal ausência de liberdade lhes foi abstraída."


sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

instavida

A metade das pernas deitadas sobre uma espreguiçadeira de madeira em primeiro plano. A mesinha ao lado sustenta um copo enorme com restinhos de fruta fresca - tudo indica que uma caipirinha acaba de ser tomada. No fundo da foto, o mar se torna verde em contraste com o azul turquesa do céu. O primeiro, sem ondas. O segundo, sem nuvens. O filtro é earlybird e a data é próxima ao reveillon. 

Dia desses uma amiga mandou um texto que dizia que as redes sociais deixam as pessoas mais tristes. Isso foi objeto de pesquisa em alguma universidade bacana do Michigan. Ou do Alabama. Eles diziam que as redes nos fazem sentir (ainda) mais sozinhos, feios, gordos, pobres e com vidas entediantes, uma vez que a maioria das pessoas publica apenas o ângulo bom de seus corpos e vidas - as viagens, os 70 amigos íntimos "começando os trabalhos", o carro novo, a neve, o balde de cerveja. De forma que nunca vemos aquele momento da fila do cartório pra autenticar documentos, o papanicolau, a Kaiser, a gordura abdominal, as dívidas no cartão de crédito, a micose. O autor do texto, ao dizer que todos, no fundo, são iguais, quis nos consolar. A nós, mortais pobres. Quis nos proporcionar aquele gostoso exercício do auto-engano - essas pessoas são umas infelizes em busca de curtidas e auto afirmação. Feliz sou eu, que não preciso de praia nem amigos nem nada, estou bem aqui, deitada em casa, olhando para o teto e isso me basta, porque sou completa enquanto ser humano. 

Eu não sei se concordo com esse estudo americano. O ato de comparar a própria vida com as demais sempre existiu, atrelado a certas deficiências que nos são básicas, como auto estima e complexo de inferioridade. A diferença é que as redes facilitam o nosso acesso instantâneo às férias alheias. E hoje, véspera de reveillon, cerca de 40% das pessoas das minhas redes sociais estão com os pés em alguma praia paradisíaca. Outros 30% estão de gorro e cachecol, luvas e casacos pesadíssimos, em alguma neve do hemisfério norte. Os restantes, sumidos, devem estar em SP mesmo. 

No calor senegalês que apenas o verão de SP nos proporciona, deitada no sofá da sala com a TV ligada na sessão da tarde, inundada pelo sentimento de culpa pelas 3000 calorias a mais dos últimos dias, vejo aqueles pés e o mar. Nunca uma metonimia foi tão cruel. Vejo aquela pessoa e não penso em sua micose nem na 2a que ela precisa tirar, nem na colposcopia que ela vai fazer, obrigações que também tenho e cuja existência não me coloca em posição de superioridade. Penso que fato é fato e ela está no paraíso nordestino, enquanto estou no mormaço paulistano. Meus caros, imagino que, por trás de cada "curtida" de vocês, há uma pontinha de inveja. Ah, a inveja, o sentimento baixo e ignóbil, o mais vergonhoso dos 7 pecados capitais, definido por Dante Alighieri, na Divina Comédia, como “amor pelos próprios bens pervertido ao desejo de privar a outros dos seus” - castigo para os invejosos era ter seus olhos fechados e costurados com arame, para que eles não vissem a luz (porque haviam tido prazer em ver os outros sofrerem). 

Costurar com arame acho exagero dramático de italiano. Os mais egoístas propugnam pela extinção das redes sociais, como a criança mimada que, contrariada, guarda a sua bola e acaba o jogo. A muitos já deve ter ocorrido sair das redes, solução quase impossível, vez que elas se tornaram o mais novo arranjo de convívio social - seria a versão digital de se trancar no quarto e não sair mais de casa pra não ver mais ninguém. 

O fato, amigos, é que, se nós conseguimos sobreviver ao "bullying" da escola, também o conseguiremos ao da vida. Sairemos ilesos, felizes e satisfeitos com a nossa caipirinha interior, nosso pôr do sol da alma, ainda que estejamos em SP. No calor de quase 40 graus. Trancados em nossos apartamentos. 

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

a memória, essa mentirosa!

às vezes sinto saudades da sua certeza.

da sua capacidade de falar, por horas, do assunto mais irrelevante como se fosse o mais urgente. Dar seriedade à frugalidade, que é para a gente continuar vivendo. A força singela da capacidade de sonhar. Porque se você enche seu pensamento com o conserto da pia da cozinha, a cópia autenticada, a corrida de 10K ou a 2a via da conta…a vida passa mais rápido. E vc morre no meio. De alguma coisa. Que não importa, pois pendências permanecerão eternas, não resolvidas, se multiplicando como Gremlins, enquanto a sua vida passa correndo se você corre tentando zerar a checklist.

o mundo e o livro de auto ajuda me dizem que os fortes são aqueles capazes de realizar. Mas, naquele tempo, você não realizava. E era forte. Porque você mantinha viva minha vontade diária de sonhar. E eu achava que isso era ser forte. Falar as coisas mais esdrúxulas, falar bobagens divertidas ou opiniões inteligentes, mas sem rumo. Sem resultado? Os devaneios. Pequenas porções de ilusão, que é pra gente ter mais força pra enfrentar a fila do banco no dia seguinte.

hoje, eu continuo tirando a 2a via, mas não tenho mais as conversas fiadas, as discussões indo para lugar nenhum. Porque a vida é cronometrada, até os papos devem ter utilidade máxima. Não enrolar. Ir direto ao ponto. Ser prático e útil e breve. O que sentimos conjuntamente, por meio de conversa, pode ficar pra depois. Porque, agora, o importante é renovar o documento do carro e cotar a próxima viagem no folheto da CVC.

não, eu não tenho saudades da sua certeza.

tenho saudades só da parte que eu gostava, que era a parte menos certa. Essa subjetividade (corajosa, em tempos de resultados) dos loucos e dos inteligentes. Só dessa parte sinto falta. Porque todo o resto era ruim. E ainda deve ser.

Ah, a memória, essa mentirosa.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

faz tempo



"Quando a mesa da sala está manca e você não arruma, quando a lâmpada da área de serviço está queimada e você não troca, quando existe uma infiltração de anos na parede e você não se mexe, quando a maçaneta da porta da cozinha está quebrada e você não conserta, é que não tem mais vida pessoal. A casa denuncia nossos maus tratos." (Fabrício Carpinejar)



auto

Olha para o buraquinho da câmera do celular, eu insistia, que é pra foto ficar mais natural. Mas ela insistia em olhar para si mesma na tela do iPhone. E, na foto, aparecia com um olhar meio caído, entre o triste e o perdido. Sem dono.

da minha aldeia

    Esse poema, dos poucos que ainda me causam alguma comoção. Fernando Pessoa, sempre. 
    "O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
    Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
    Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.
    O Tejo tem grandes navios
    E navega nele ainda,
    Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
    A memória das naus.
    O Tejo desce de Espanha
    E o Tejo entra no mar em Portugal.
    Toda a gente sabe isso.
    Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
    E para onde ele vai
    E donde ele vem.
    E por isso porque pertence a menos gente,
    É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

    Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
    Para além do Tejo há a América
    E a fortuna daqueles que a encontram.
    Ninguém nunca pensou no que há para além
    Do rio da minha aldeia.

    O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
    Quem está ao pé dele está só ao pé dele."


       Alberto Caeiro

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Pra quem gosta de BritPop

Para quem viveu/gosta do BritPop, livro bacana de John Harris sobre o movimento musical inglês e as bandas mais emblemáticas. Todas as infos no link abaixo:

http://screamyell.com.br/site/2012/03/19/livros-a-ascencao-e-a-queda-do-britpop/

sábado, 5 de maio de 2012

parar




"E no entanto se podia sentir uma vibração no ar, uma certa pressa. Tudo havia começado com a Lua, a Lua, inacessível poema. Agora os homens haviam andado sobre ela, pegadas de borracha em uma pérola dos deuses. Talvez uma consciência maior da passagem do tempo, o último verão da década. Às vezes eu tinha vontade de simplesmente levantar a mão e parar tudo. Mas parar tudo o que? Talvez apenas parar de crescer." 
(Patti Smith, "Só Garotos")